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Tudo que eu vejo

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II

 

Mas Sérgio esqueceu de tudo aquilo que enchia sua cabeça. Mais do que tudo, naquele momento, ele queria achar um banheiro. A viagem desde Belém, para onde fora ver uma parente doente, fora longa. Os remédios, os diversos copos d’água, o calor reinante…tudo direcionava para um único destino solitário por aquela porta adentro.

Após o processo estar completo, o sabão, a água nas mãos, a porta. Na teoria, parece tremendamente simples. No entanto, havia no ar uma nítida sensação macabra. Algo indicava que o desconhecido que nos aguarda a cada abrir de porta não era lá dos mais agradáveis para Sérgio. Seus neurônios começavam a sufocar, pedir por oxigênio, procurar uma saída.

A escuridão, no entanto, era mais espessa. O breu em seus olhos era implacável, não dando espaços para um único vislumbre de luz.

De repente, outra cor passou a se insinuar na superfície trevosa do espelho. Os contornos de Sérgio, em um tom de rubro muito vivo, começaram a se distinguir dentro daquele quadro de horror.

A face no espelho era a representação do que havia de mais diabólico. Nada de exageros, risos maléficos ou mesmo uma expressão sombria e opaca: Os olhos recheados de sadismo, as maçãs da face  levemente alteradas, sorrindo com a satisfação de um torturador em vista do sofrimento alheio. E mais aterrador do que qualquer coisa, a tranquilidade de quem tem a inexorabilidade da morte ao seu lado, como um elemento a ser usado a seu bel prazer.

“ Acorde” disse a imagem no espelho para Sérgio, que poderia ficar assustado facilmente e sair correndo daquela sala infernal naquele mesmo instante. A serenidade no olhar daquele ser que ainda era capaz de ver deixou-o totalmente hipnotizado. Lembrou-se das vezes anteriores, das pias quebradas, dos sustos repentinos no meio da rua. Enquanto ninguém se aproximava dele, o homem no espelho aparecia nos seus momentos de loucura. Aliás, nas horas em que esta última ultrapassava as barreiras interiores do tolher social e mental. Era como um companheiro. Mudo, aterrador, perturbador o suficiente para perturbar-lhe o sono. Mas um companheiro, afinal.

 Com o passar do tempo, a expressão naquele rosto parecia estar cada vez mais contentada com seu sofrimento. Dez dias atrás, ela finalmente parecera rir, com a plenitude de quem sabia distinguir a realidade. E, naquela noite, dia 16 de janeiro de 2010, Sérgio chegou a uma conclusão tola, quase óbvia: “ Este é meu único amigo. E nesta noite ele sorri novamente”. E foram palavras ditas por Sérgio Malheiros da Costa Oliva, vindo ao mundo a 22 de julho de 1960, divorciado, sem filhos, sem pai, mãe, irmão e amigos, a epítome da decadência humana, tal qual sua trajetória antes de chegar ao chão frio, consciente apenas da própria inconsciência.

Escrito por Henrique de Almeida

junho 1, 2011 às 7:42 pm

Publicado em Uncategorized

Uma resposta

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  1. Ja lhe disse que estou curtindo suas narrativas novas, ne, Henrique?

    Entao, ja estas linkado na casa nova tambem, definitivamente.

    Abrax,

    Roy

    Roy Frenkiel

    junho 6, 2011 em 5:36 pm


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