Memória do Rádio- Parte 2

http://soundcloud.com/henrique-coelho-2/segunda-parte-do-programa

Nessa última parte, depoimentos de Dona Janete(viúva de Doalcei), Cláudio Perrout(repórter do Sistema Globo de Rádio), Luiz Penido(locutor esportivo da Tupi à época), José Carlos Araújo(Locutor Esportivo da Rádio Globo) e Tony Vendramini(repórter da Rede TV!)

Anúncios

Matéria STF

Matéria STF

Saudações, amigos! Após longo e tenebroso inverno, volto a publicar neste espaço, e com uma novidade: agora, também vou colocar matérias minhas veiculadas pelos 900 Am da Rádio Tamoio. A primeira é sobre a decisão do STF sobre o aborto de fetos anencefálicos. Os três entrevistados são feras no assunto. Eis ai a matéria na íntegra. Curtam, compartilhem, desgostem….mas deem suas opiniões nos comentários!!

Valeu e até a próxima

Tudo que eu vejo – fragmento III

III

Redação do jornal Diário do Rio, na rua Santa Maria, 147. Localizada na divisa entre o Estácio e a Praça Onze, é uma parte da cidade com características bem peculiares.  A rua que abriga a redação segue em frente, ultrapassando um quilômetro de extensão e passando por diversos pontos quase até o Sambódromo da cidade. Os caminhos que saem dela podem tanto levá-lo à zona Norte quanto à zona Sul, e tudo depende da direção a se tomar. Em dias de sol(e como eles são comuns no verão carioca), o calor descomunalmente intenso assola todos os que se encaminham, a passos largos, rumo ao imponente(?) prédio. Em dias de chuva, a rua costuma alagar em um piscar de olhos, dificultando a saída de todos os infelizes presos naquela jaula de perversidade que era a redação do Diário.

Tá bom, estou só pintando quadros com linhas exageradas. A maioria das pessoas que trabalhava ali tinha alguma decência, e não pretendia passar por cima de ninguém para conseguir os seus objetivos. Mas era grande a cambada de puxa-sacos, malditos jornalistas medíocres que precisavam afagar o ego dos chefes para conseguirem algum respeito lá dentro. E esse era um dos aspectos com os quais Guilherme Marques não se identificava dentro da profissão. Ou pelo menos, não ultimamente.

( Ao leitor, uma declaração importante: não há seres unidimensionais nesses escritos. Tal qual na vida, não há pessoas que sejam minimamente próximas de chegar a pensar na possibilidade de perfeição. Nem heróis e nem vilões, em seus maniqueísmos incoerentes. O que vocês verão aqui são apenas pessoas.Em suas atitudes majestosas e em suas mais animalescas decadências… pessoas. Dito isso…)

Guilherme não era um cara especialmente marcante. Pelo menos não à primeira vista. Ainda tentando emagrecer mais e ficar em forma depois do término com a namorada, seus óculos meio tortos, meio inexpressivos, impediam que algumas pessoas soubessem que ele tinha olhos verdes, por exemplo. O cabelo baixo lembrava um corte militar, carreira que ele jamais imaginaria pensar em seguir. As calças jeans, surradas pelos meses de uso, praticamente eram sua segunda pele. Ou melhor, a primeira. Suas camisas, básicas até demais, acabavam por dar um toque extra de não-charme à sua presença na maioria das vezes. Mas independente de todos esses fatos, Guilherme era um cara querido: fosse pelos amigos, fosse pela família e até a maioria dos colegas de trabalho que, à sua maneira, demonstravam por ele seu apreço e amizade. Mas….

Ali, Guilherme se sentia preso. Com poucas possibilidades de crescimento profissional. Queria poder partir para novas veredas dentro do jornalismo, dentro do rádio( uma de suas recentes paixões) ou mesmo na literatura, por que não? Até mesmo tentar novas pautas, diferente do factual engessado e condicionado do dia a dia de uma redação. Não por acaso todas as últimas tentativas de falar com editores sobre novos direcionamentos para as matérias de cada dia haviam falhado miseravelmente. Guilherme encontrava-se, atualmente, redigindo notas policiais que ele costumava copiar de outros sites. Função até certo ponto importante, mas com nenhum resquício de brilho ou talento necessários. Brilho e talento que ele, antes de tudo, precisava saber se possuía. Em seguida, fosse o caso, exercitar esses nobres nomes que em poucos momentos, na história do ser humano , estiveram realmente amalgamados. *Reparem a pretensão do narrador

Havia ainda o momento pelo qual Guilherme estava passando. Seu término de namoro havia sido levemente conturbado. Desculpas, insatisfações, o doloroso clichê: “ Não é você, sou eu”….tudo aquilo estava presente no pacote, e estava sendo difícil, ele pensava, passar por tudo aquilo incólume. Um amor, para passar, muito se demora. E, às vezes, ele nunca vai embora. Quem sabe poderia surgir alguma garota nova…quem sabe não.

A vida seguiria seu curso, mas para onde?

Para trás, quando da tentativa dele, Guilherme, de sair pelas noites bebendo e conhecendo garotas que nada acrescentariam em sua vida, se tornando apenas uma memória obscura da noite anterior da qual, por vezes, você não faz a menor questão de lembrar? E trabalhar em tais condições, físicas e espirituais?  Como prosseguir?

Para frente, em busca de sucesso, fama e fortuna que poderiam não vir nunca? Tentar caminhos obscuros, pelos quais não se sabia onde poderia terminar? O desconhecido a espreitá-lo a cada negação, a cada surpresa desagradável?

(percebe-se a pouca vocação deste rapaz para o otimismo)

E mesmo aos lados, em que estagnaria no mesmo ponto, mudando apenas o sentido do seu caminhar. Perambular de um jornal para o o outro, talvez para alguma assessoria, nunca poder utilizar seus possíveis talentos para a escrita da maneira mais apropriada.

Seus devaneios foram interrompidos pela voz comicamente fina do editor do jornal:

– Gui, eu preciso de você lá no Copa D’or.

– Que que tá pegando, Marcelo?

– Ah, nada, é só porque teve aquele escritor….que escreveu aquele livro, “ Canção de Lótus”…me esqueci o nome dele…

– Sérgio alguma coisa?                                                                            .

– Sérgio Malheiros, isso! Bem, ele teve um derrame no aeroporto e foi pro hospital. Todos os sites estão dando isso, e o jornal não pode ficar sem dar. Ainda tá cedo, manda por telefone algumas informações que eu peço pra alguém bater a nota pra você. Vai lá, já tem o carro te esperando.

– Quer que eu leve um fotógrafo?

– Não, isso ai é coisa pequena. Ele já foi muito famoso, mas tá na merda há um tempo. Amanhã, chega um pouquinho mais cedo pra escrever o obituário dele. Vamos ver em qual dia da semana esse desgraçado, morre, hein?

Vendo que Guilherme não rira de sua demonstração de humor mórbida, Marcelo prosseguiu:

– Bem, é isso ai. Se cuida lá e liga pra cá se der alguma merda. Tu sabe o ramal,né?

– Uhum.

– Tranquilo então, vai na fé.

Ao ouvir a última palavra ser proferida, Guilherme já ia desligando o seu computador preto e se levantava de sua cadeira, que ele já sabia que não seria a mesma do dia seguinte, assim como não fora a mesma do dia anterior. Ladrão de cadeira era o segundo ofício dos jornalistas ali presentes.

Foi saindo da redação, rumo à noite carioca. A gráfica do jornal, que era anexa à redação, oferecia uma trilha sonora apropriada para aquele momento: toneladas de papel sendo inseridas nas máquinas que processavam e davam forma ao jornal, com editoriais, calhais, anúncios, matérias, coordenadas,infográficos…histórias a ser contadas e supostos interesses da sociedade escancarados naquelas páginas.

Nem pensou que sairia de lá depois de algum tempo sem ir à rua, que sairia daquela rotina maçante da redação, de computadores com defeito, programas de edição que não funcionam, uma cantina com péssimo cardápio, enfim… Afinal de contas, ele tinha a absoluta certeza de que nada iria mudar.

——————————————————————————————————————–

O táxi já estava ali, à sua espera. Rapidamente abriu a porta do veículo -amarelo à sua frente e sentou-se na parte de trás.

– Já preencheu o Voucher,amigo? – perguntou o taxista.

– Tá aqui, irmão. Vamos lá pro Copa D’or, por favor.

Assim que o táxi começou a se mover , ele trocou a música que estava ouvindo em seu ipod. Se até então ele estava viajando nas duas guitarras ondulantes do Wishbone Ash, agora toda a sua atenção se prendia a alguns acordes tocados no violão e também ao piano. Aquela melodia melancólica, praticamente a angústia em curvas acústicas, não lhe deixava dúvidas: estava ouvindo Savatage. O carro acabara de passar pela portão de ferro automático, para longe da Rua Santa Maria, e Guilherme ouvia Jon Oliva começar a declamar a letra. Era um vislumbre de esperança para quem, como ele, tinha no pessimismo um amigo fiel e a derrota como um fim inexorável. Principalmente nos momentos de desequilíbrio em sua vida, como ocorria então.

“ Não há vida tão curta que não haja reviravoltas

Não podes passar a vida vivendo abaixo da terra

Longe, lá de cima, não se ouve um som”
Os violões tomavam novamente a dianteira da canção. Dessa vez, havia um som mais alegre, uma possível chance de levantar-se, a fim de mandar às favas as dificuldades e se recompôr para um novo dia.

“ E estou aqui fora, esperando

Eu não entendo o que você quer que eu seja

É o escuro que você está odiando,

Não é quem eu sou, mas você sabe

Que é tudo o que você vê”

Volta ao fundo a melodia inicial. Mal percebe Guilherme que o taxista já estava atravessando o túnel Rebouças. Ele fatalmente faria o caminho mais longo até o Copa’Dor. Mas dane-se, pensou Guilherme, se quem iria pagar por aquilo era o jornal mesmo. Voltou suas atenções para o que estava passando pelos seus ouvidos adentro, chegando ao seu registro cerebral. E falava ao coração.

“ Não há vida tão curta que nada se aprenda

Não há chama tão pequena que nunca se esvaia

Não há página tão certa que jamais se vire”

Após o refrão, as cordas de um violão se insinuam a criar notas solitárias no ar, como se fossem uma voz a mais para a música. Guilherme agora se recorda porque sempre ouvia esta música quando estava no fundo do poço. Já se sentia incrivelmente melhor, disposto a esquecer tudo o que lhe afligia, ou pelo menos armazenar esse vasto material emocional em um canto seguro de sua mente, para que pudesse desempenhar ao máximo suas capacidades.  Assim como dizia a letra,“ Enquanto um milhão de vidas vem e vão, passam por esta mesma nesga de chão”. Ele não queria ser apenas mais um número, mais um zero. Não queria passar despercebido em sua trajetória pré-tumba. Fosse entre os colegas de profissão, fosse com os amores vindouros de sua vida.
E queria aproveitar esta última, por sua vez, ao máximo. Afinal, nada mais ela era do que uma colagem de momentos como aquele, tristezas e alegrias num piscar de olhos, em um par de acordes. A música, a dança….Tudo estava inserido naquele momento, e em tantos outros que já haviam passado. Assim como em tudo o que estaria por vir. Se seu destino estava definido ou não, nunca importou muito a Guilherme. A incerteza era sua guia, lhe norteava como um viajante e sua bússola. A partir dali, não queria ter mais medo de tentar. Acima de tudo, queria arriscar.

Chegara ao seu destino. Após algo que lhe pareceu um tempo de 20 minutos mais ou menos, estava na frente do Copa D’or. Entregou o papel do Voucher ao taxista e saiu do carro com sua mochila nas costas. Havia agora uma missão a ser cumprida. A música que ouvira no carro lhe dera um novo ânimo para alcançar suas metas. A partir dali, prometeu Guilherme a si mesmo, tinha início uma nova etapa. Viver era uma jornada incerta, e ali era apenas mais um desdobramento da estrada a ser percorrida.

Tudo que eu vejo

 

II

 

Mas Sérgio esqueceu de tudo aquilo que enchia sua cabeça. Mais do que tudo, naquele momento, ele queria achar um banheiro. A viagem desde Belém, para onde fora ver uma parente doente, fora longa. Os remédios, os diversos copos d’água, o calor reinante…tudo direcionava para um único destino solitário por aquela porta adentro.

Após o processo estar completo, o sabão, a água nas mãos, a porta. Na teoria, parece tremendamente simples. No entanto, havia no ar uma nítida sensação macabra. Algo indicava que o desconhecido que nos aguarda a cada abrir de porta não era lá dos mais agradáveis para Sérgio. Seus neurônios começavam a sufocar, pedir por oxigênio, procurar uma saída.

A escuridão, no entanto, era mais espessa. O breu em seus olhos era implacável, não dando espaços para um único vislumbre de luz.

De repente, outra cor passou a se insinuar na superfície trevosa do espelho. Os contornos de Sérgio, em um tom de rubro muito vivo, começaram a se distinguir dentro daquele quadro de horror.

A face no espelho era a representação do que havia de mais diabólico. Nada de exageros, risos maléficos ou mesmo uma expressão sombria e opaca: Os olhos recheados de sadismo, as maçãs da face  levemente alteradas, sorrindo com a satisfação de um torturador em vista do sofrimento alheio. E mais aterrador do que qualquer coisa, a tranquilidade de quem tem a inexorabilidade da morte ao seu lado, como um elemento a ser usado a seu bel prazer.

“ Acorde” disse a imagem no espelho para Sérgio, que poderia ficar assustado facilmente e sair correndo daquela sala infernal naquele mesmo instante. A serenidade no olhar daquele ser que ainda era capaz de ver deixou-o totalmente hipnotizado. Lembrou-se das vezes anteriores, das pias quebradas, dos sustos repentinos no meio da rua. Enquanto ninguém se aproximava dele, o homem no espelho aparecia nos seus momentos de loucura. Aliás, nas horas em que esta última ultrapassava as barreiras interiores do tolher social e mental. Era como um companheiro. Mudo, aterrador, perturbador o suficiente para perturbar-lhe o sono. Mas um companheiro, afinal.

 Com o passar do tempo, a expressão naquele rosto parecia estar cada vez mais contentada com seu sofrimento. Dez dias atrás, ela finalmente parecera rir, com a plenitude de quem sabia distinguir a realidade. E, naquela noite, dia 16 de janeiro de 2010, Sérgio chegou a uma conclusão tola, quase óbvia: “ Este é meu único amigo. E nesta noite ele sorri novamente”. E foram palavras ditas por Sérgio Malheiros da Costa Oliva, vindo ao mundo a 22 de julho de 1960, divorciado, sem filhos, sem pai, mãe, irmão e amigos, a epítome da decadência humana, tal qual sua trajetória antes de chegar ao chão frio, consciente apenas da própria inconsciência.

Tudo que eu vejo

Ré.Si. Ré. Si.

“ Atenção senhores passageiros, dentro de cinco minutos estaremos fazendo o procedimento de pouso no Aeroporto Internacional Santos Dumont. Esperamos que tenham feito um ótimo voo. A ESH agradece a preferência e deseja a todos uma boa estada no Rio de Janeiro.”

Ainda baleado pelo calmante que tomara em São Paulo, Sérgio Oliva demorou alguns instantes para se aperceber do que acontecia. Após acordar, lembra-se do desastre que fora a sua reunião com os membros da editora que publicaria seu próximo livro. Os diretores andavam irritados com ele, pois as vendas de seus livros haviam caído muito nos últimos 5 anos. Tê-lo nos quadros da organização estava custando muito caro e dando pouco retorno. Pensou até em dizer que a culpa era do brasileiro que não lia, mas não podia ser mais desonesto se tivesse dito isso. Os livros é que eram uma merda mesmo. E ainda se fosse uma merda bem vendida, mas não era. Ou seja, a situação era levemente desesperadora. O sucesso tinha que vir no próximo livro, pelo menos quinhentas mil cópias. Do contrário…

Pensando bem, não queria pensar no contrário. As coisas já não estavam bem, sua ex-esposa tinha casado com um playboy de Montecarlo. Havia conhecido o filho da pu…quer dizer, o desgraçado durante a segunda lua de mel deles. Além de ter gasto dinheiro, acabou virando um corno, pensou Sérgio. Na época que isso aconteceu….bem, deixa pra lá.

Enquanto pensava em tudo isso, quase todos os passageiros já haviam se levantado, com ele ainda sentado em seu acento, com o cinto afivelado. Resignando-se em esperar, fez um comentário mordaz para o passageiro ao seu lado.

– Esse povo parece uma manada enfurecida, né não, Rodri…..

De repente, um branco na mente. Um silêncio pujante tomou as últimas letras do nome que estava para ser dito. A dura verdade tomou-lhe de assalto, inexorável. Ele não estava lá. Havia muito tempo ele já não estava lá.

Angústia. Era esse o sentimento que se apoderava dele naquele momento. Não podia ser diferente. A ausência do irmão, seu companheiro de todas as horas e alma gêmea musical, havia deixado uma indelével lacuna em sua alma. Por mais que tentasse, não conseguia pensar naquilo como algo natural.  Mais até do que isso, não conseguia sentir saudades do irmão, ou pensar nos momentos em que estiveram juntos tocando, ensaiando, falando merdas um pro outro, brigando pelas coisas mais estapafúrdias possíveis…enfim, não podia sequer lembrar da figura do irmão, uma vez que este morrera surpreendente e inexplicavelmente logo depois de ter gravado seu melhor trabalho. Lembrou-se que seu irmão havia tatuado a capa do seu último disco nas costas. O trabalho ficou eternizado na pele de Rodrigo Oliva e tornou-se o seu pungente e fantástico canto de cisne, em uma triste ironia.

Sérgio decidiu, porém, que não queria mais revisitar aquelas memórias, pelo menos não no presente momento. Percebeu então que o avião já estava praticamente sem ninguém, e ele nem havia pego ainda sua bagagem de mão. Quando passou pelos tripulantes da aeronave, ouviu da boca da comissária de bordo uma frase que mal conseguia esconder o sentimento intrínseco de ódio por ele em seu coração.
– Adoramos recebê-lo, senhor. Tenha um bom dia.

Sérgio não teve nem coragem de dizer nada. Passou direto pelos tripulantes e foi direto para a área de desembarque para pegar sua única mala. Olhou para cima e perdeu momentaneamente seus olhos na beleza sombria da noite carioca. A volta para casa era a coisa que menos lhe preocupava naquele instante. Tudo o que queria era chegar em casa, tomar seus remédios acompanhado de uma vodca e esquecer de sua existência, que caminhava infalivelmente para a ruína.